Levou-me a casa, o Henry, um estrangeiro mais Português que um bigode com o qual resolvi travar sem freio aproximação. Mais velho quinze anos e simpático como um político arrecadando a confiança dos votantes. O jantar correra melhor que a Rosa Mota, embora a pista me parecesse por vezes às cobras. Bebi sim, líquidos sem transparências. Na casa dele, fotos passadas.
Florbela: Quem é aquela?
Henry: É a minha ex-mulher. É bonita, não é?
Florbela:…ah…é, claro!
Cruzes credo! Tem fotos dela/deles em cada entrada das casas-de-banho? O casamento deve ter sido mesmo uma merda.
Vá, aquilo das fotos cuspidas entre estantes, paredes e albuns era o mínimo. Os restos da noite aos socalcos não davam tréguas a ciúmes ou outros sentimentos medíocres. Noutra prateleira uma ou duas fotos, caso eu estivesse a ver aos duplos, era de biquíni na praia de areia branca e cabelo molhado em sal. Estaria ainda na saudade da cura da ruptura ainda que saudável? Aquelas fotos seriam apenas para redecorar e acarinhar o lar de um separado ao invés das jarras floridas e uma cozinha perfumada, embelezadas como se limpassem a estranha e recente morada do separado de fresco com muito pouca frescura.
Não te espantei. O teu filho (um deles) olhou-me desacreditado como uma das muitas fugas do pai. Não me espantei!
Galinhas
Aposta?
Henry: Vou apostar em ti!
Florbela: Vais apostar em mim?
Henry: Sim, só houve três mulheres em que apostei na minha vida, tu és uma delas
Florbela: Fico lisonjeada como uma cozinheira do melhor hotel do Algarve…ihihih
O que Florbela devia ter dito: Apostar? Olha lá, mas julgas que sou o quê? Um galo empinado de bico em riste pronto a servir de centro de mesa? Fica sabendo que já tenho dentes! Isso das apostas que só quando as galinhas tiverem dentes está fora das modas.
Outra Vez
Tornei a encontrar-te. Como aposta? Não. As vidas não são cartas baralhadas. Fui a tua casa. Segunda sessão de fotos fantasma. Um casamento de anos e anos. Que tenho eu a ver com as tuas falhas? Não sou sismógrafa nem tão pouco previ a falha tão evidente na minha crosta no teu solo.
Henry: Tive muitas namoradas depois da minha separação, mas tu és diferente.
Florbela: Tive muitas separações antes da diferença.
Henry: Gostei de te conhecer, mas aquela ali das fotos perto do lavatório tem cartas nas mangas. Não entendo muito de magia, sabes?
Florbela: Nem eu, mas olha a única coisa que tenho nas mangas são costuras, um relógio e veias palpitantes.
Outra Vez
Deixei passar, como deixamos atravessar o carro nas linhas ferroviárias sem olhar, sem querer saber, apenas confiando nas destreza dos que ainda não encontraram aquele caminho recto, de quem estuda, de quem casa, de quem tem filhos e depois…e depois? Que valor tem tanta linearidade? Nunca acreditei nisso. Serve para aqueles que se a linha recta se desviar um milímetro que seja, toda a estrutura universal descai. Isso é só para doidos, não?
A Ex
Entrou no quarto dele, com os dois mais novos rebentos.
Raquel: Olá, estás boa?
Florbela: Sim, estou boa, acho.
O que Florbela devia ter respondido: Olá…olha, sou novata na vida do teu ex marido, francamente não esperava que entrasses no quarto dele como se estivesses a entrar numa sala de cinema sem pipocas em que ele ainda fosse o protagonista e eu a nova figurante.
Raquel: Ah…ehehe – sorrisos sonsos – gostas de animais?
Florbela: Adoro.
O que Florbela devia ter respondido: Adoro! Animais com duas pernas, de preferência sem ex esposadas com extremo à vontade para entrar no quarto dele não estivesse eu ainda de calças, blusa e outros colados a mim.
Sobe!
Fui ter com ele, o Henry. Toquei a campainha “está lá??” Está lá? Que voz estridente, valha-me minha nossa Senhora dos Poucos Ouvintes. Era a Raquel. “Sobe Florbela”. Pois subo, havia de ficar em terra porque motivo? Não estava previsto nenhum tornado ou furacão. Subi e lá estava ela e os dois mais pequenos consequências de anos e anos de casamento. Subi e entrei, recebida por uma ainda família.
Henry: Atão?
Beijo
Florbela: Atão?
Ela de um extremo a outro da vontade de quem está no seu lar, eu no pouco à vontade de um lar do qual bem recebida, como se entra numa loja se vê a qualidade, o preço, a simpatia e depois…e depois ou voltamos ou ficamos ou saímos. Resolvi ficar.
Raquel: Estava já de saída.
Estavas pois. Estavas de saída desde que saí da rua para os braços do teu ex marido. Conheço essa saída, só sais com os direitos de ficar por teres tido os braços dele mais tempo que alguma vez o irei ter, não? Mas deixa lá, tenho batatas fritas e os vossos filhos que são mais doces que o açúcar dos bolos de chocolate.
Bons Amigos Ainda
“Somos amigos” Sei, são amigos. E nós que vamos ser Henry? Amigos? Rasguei um joelho ao descer uma colina de bicicleta e sem travões. O meu amigo na altura não tinha penso nem analgésicos. Curou os joelhos em ferida. Não me casei com ele. Não está todos os dias em minha casa como uma televisão ligada ao acaso.
Henry: Tens que compreender que eu e a minha ex mulher somos amigos pelos nossos filhos, ok?
Florbela: Isso é lindo, muito lindo…
O que Florbela devia ter dito: É lindo Henry, é lindo quando o casal decide unir os dedos no mesmo anel. Filhos? Os filhos o serão para um primeiro e último vulto de respiração. Já a mãe desses, a respiração se acabar é outro ar.
Passo Aí
Henry atende o telemóvel “sim, olá estás boa?…tá…sim, ok, às três? Até já”
Henry: A Raquel vem trazer os putos às três, tem um lanche marcado com a Alice, uma amiga nossa de há muitos anos.
Florbela: Claro… – coçando a narina mais à direita – claro…eu compreendo…
Claro! Quando tem compromissos para além dos que tem ainda com o meu Henry, bem que as saudades dos pequenos são tantas, quantas eu tenho do tempo de estudo para a tese de licenciatura. Despacha-os para a casa do seu ex e nem lhe passa pelos poucos neurónios de uva passa que aquele que ela fez questão de o tornar ex, tem agora uma mulher/namorada, a qual passava pelos neurónios, estes talvez um pouco mais activos, passar as uvas com o Henry. Lembrar-se-ia ela de tal mosto? Passar os meus momentos sem as migalhas que ela me deixou, ao invés de ser esmigalhada. Serei sempre esmigalhada ou fico-me pelas migalhas?
São três horas. Nem sombras dela. Tenho que esperar por ela ou ainda nos podemos ousar e portar “mal”…hein?hein? ihihihihihi. Ele impávido. Impávido e parvo! Porque é que ele ainda tem tanta foto dela por todas as secções? Parecem recordações de uma falecida. Ela é de biquíni saindo do oceano às gotículas, vestida à dama antiga, vestida, com os filhos que têm saudades dela, etc.
Lá vou eu ter que me vestir…
Cheguei
A campainha toca, mas a voz dela ouve-se primeiro. Ouço a porta abrir. Ela tem as chaves da casa dele. Eu corri como a Aurora Cunha para a casa-de-banho, pois estava em trajes mais menores que os das fotos felizes das Caraíbas do ano de 1987.
Raquel: POSSO?
Ora, se já abriste a porta e entraste, por favor senta-te no sofá e serve-te de uma soda fresca. “Olá querido!…chuak!” Deus meu, que acções tão ruidosas! “Olá Florbela, estás boa?” Estou boa, boa como a água sem cloro. São quatro horas e dezasseis minutos. A pontualidade diz mais de uma pessoa que os soquetes brancos dizem de um homem. Eu como fui educada à parte da boa maioria, sou mais pontual que um relógio. O Henry também o é. Será por isso que fico? Fico ou não? Algum relógio um dia irá badalar e decidir. Putos entregues. Grande abraço e beijo ao mais pequenote e doce como uma toranja. A outra, essa só se interessa pela internet, mas é igualmente doce.
Raquel: Ai, tenho que ir ter com a Alice!! Depois venho buscá-los, ok queridos?
O meu relógio marca dezassete horas e trinta e dois minutos.
Henry: Na boa, está à vontade, “mi casa es tu casa.” Não te apresses, não tenho planos também.
Florbela: Mas Henry, não estava combinado irmos ao supermercado comprar o nosso jantar…o que tínhamos combinado, lembras-te, com velas e tudo? Uvas passas, etc…hein?
Henry: Já não me lembrava. Fica para depois, devias de saber que primeiro estão os meus filhos. Em segundo lugar não há muitos segundos para os passar contigo.
Lá vou eu ter que apanhar ares para não ter que me asfixiar com aquele que ainda nem sei se vale partilhar as mesmas assoalhadas onde respiram fotos da Raquel. Antes fossem só as fotos…
Chegou
A porta abre-se antes de ser anunciada. São vinte horas. “OLÁ QUERIDOS!!” Chiça, até me agonizei com tanto decibel. E logo o meu Henry que se diz sensível ao ruído e não se queixa. A voz dela é para ele a Sonata ao Luar de Beethoven.
Raquel: Atão, portaram-se bem? Ai, estou tão cansada.
Henry: A Florbela ainda levou o puto ao café, mas antes deu-lhe banho, jogaram xadrez e viram os desenhos animados. Eu fiquei-me pelo computador.
Raquel: Ó, obrigada Florbela, és uma querida!
Florbela: De nada, é um prazer.
Pois sou uma querida, no fundo, no fundo, como nas minas, os mineiros sabem que são úteis. Mas uns fazem-no por gosto, outros fazem-no para encher os rostos e os pulmões de negro. Não é o meu caso, não.
Henry: Queres ficar cá a jantar?
Raquel:…ah tá bem, se a Florbela não se importar.
Florbela: Importar-me importo-me, porque eu faço parte da secção das exportações, mas enfim, abro uma excepção.
Henry: Pareces parva! Porque não havia de ficar a jantar? Aliás estão aqui os nossos filhos, não?
O que Florbela devia ter respondido: Sim, os vossos filhos devem estar mais confusos que um baralho de cartas mal baralhado: oras, os pais estão separados e perto do abismo de um divórcio, mas…mas continuam mais chegados que o cabelo ao couro cabeludo! E eu? Devo ser o quê para eles? As extensões dos vossos cabelos? Tenham respeito ao menos pelos alicerces que fizeram nascer!
Não os deixem ficar com as pontas espigadas.
Jantar a Três mais as Crianças
E o nosso jantar? O meu jantar com o meu Henry? Tanto e tão pouco espaço ainda tivera com ele desde o primeiro encontro entre curvas empáticas e já partilhava a vida dele sem participar nela. Devo ser burra! Se calhar gosto dele. Admito que sou mais fútil e superficial que as revistas que aparecem às sextas ou sábados nas nossas casas, mas é como se não possuísse ou tivesse esquecido a senha do cofre do profundo. Devo-me ter fartado de ser profunda, afinal de contas só me serviu para me afogar ainda mais.
Raquel: Ai Henry, está óptimo o teu arroz, adoro!
Henry: Até parece que não sabes que cozinho bem…vinte sete anos para te relembrares?
Florbela:… é boa a sopa. É a primeira vez que a provo.
Raquel: Lembras-te daquela vez em casa do Patrício e da Sílvia que tu fizeste um petisco do caraças?
Henry: Pois foi…o pessoal apanhou tudo uma carraspana…eheheheh….bons tempos…
Raquel: Bons tempos mesmo…que saudades! E lembras-te da Joana que fugiu com o Carlos depois de se terem separado?
Henry: Perfeitamente…
Florbela: Bom…puto, já comeste? E tu miúda? Vá, eu ajudo a levantar a mesa e a pôr a loiça no lavatório.
As recordações dos dois ficavam na mesa entre talheres e guardanapos. Devo ser mesmo lorpa. Estarei apaixonada? Resolvi meter plástico nas mãos e ensaboar os restos secos dos pratos. Ela chega-se a mim “sabes Florbela, o Henry esteve muito doente. Teve cancro nos pulmões e na laringe…felizmente a sorte deu-lhe uma oportunidade.” Estás-me a dar cá uma novidade. Foste tu a mente criativa para a publicidade do Continente Hipermercados?
Vinte e três horas e quarenta e seis minutos. Foi para casa, levou as crianças. Fiquei com ele, mas o fantasma dela não permitiu romance entre os que ficam.
Fico, devo ficar, devo sair…fico! Tudo é possível!
Diferença de Idades
“És muito nova Florbela, sem experiência de vida.” Ouve Henry – se ainda tiveres capacidade para me ouvires – a experiência não se adquire com a idade nem com o tempo. Há idades avançadas com poucos quilómetros em que o único acidente terá sido no mínimo um furo de um pneu provocado pelo corno de um javali. Já outros à nascença experimentam doenças ou a morte. Quem és tu para me atacares com experiências? Cada qual tem a sua, se fossem todas iguais, seriamos previsíveis e desinteressantes. A tua vida por muito sofredora e vivida que seja não o é mais, mas diferente das outras, quer se tenha dois, cinco, quarenta, sessenta e sete, oitenta e seis, cem anos! O tempo é relativo precisamente porque as experiências o fazem relativizar.
Espantas-me!
Fidelidade? Que é Isso?
Vens cá hoje? Pergunta ele. Sim, porque não? Embora sejas mais velho que eu algumas experiências, tenho a gentileza que as partilhes comigo e eu as minhas contigo. “Hoje a Raquel vai ter com o namorado a Sesimbra.” Namorado? Ela tem namorado? Mais espantada que o espantalho que não assusta nem os corvos, repeti-me: Ela, a tua ex esposada tem namorado? Sim tem. Bolas, tinha que ser de tão longe?
Henry: Olha Florbela, eu sou um gajo honesto e muito sincero, eu nunca amei ninguém como amei aquela mulher e sofri…sofri. Ela nunca me foi fiel, nunca foi como os cães que tive – nem como as cadelas, que essas são igualmente leais – e que fique claro, não tenho vergonha de dizer e assumo, ok? Toda a gente sabe, aliás!
Florbela: Ai Henry, não sabia disso. Tenho pena mesmo, mas porque continuáste casado?
Henry: A Raquel era uma autêntica expansiva, tinha um grande coração e por essa razão o espalhara por toda a cidade. Uma grande mulher!! Daquelas como eu gosto e me dão “pica”, luta, entendes? No fundo ficava orgulhoso, por saber como se sabe que três mais quatro é igual a sete, ela seria sempre minha e os outros é que “lerpavam.” Todos a desejavam, mas era só MINHA!
Espantada! Espantada! Espantas-me! Espantas-me! Nunca hás-de, melhor dizendo, nunca “há-des” te agarrar com cornos a mim.
“Há-des” de Inferno que começo a viver no lugar do paraíso prometido na infância.
Porque continuo contigo? Alguma missão extra cósmica mo obriga? Essa missão deve anular os ainda alguns neurónios que vou tendo.
Logo Pela Manhã!
Logo de manhã.
Raquel: Olá Henry? Olha, estavas a dormir? Olha, agora vou a casa dos meus pais, depois vou ver a Carminda que tem uma unha encravada e depois vou para aí.
Henry: Tá. Xau!
Porra, nem eles têm privacidade nem eu, pois ela fala mais alto que a Torre dos Clérigos e eu tenho o sono mais leve que a consciência. Ainda ensonada e despreparada pelo último sono antes do toque que adivinho ser um modo de vida entre ambos, ficou-me gravado na fita da cassete “depois vou para aí. ”Depois vais para onde? Para casa? Mas…ponham-me num ponto embora mal esgravatado da minha vida, mas…”depois vou para ai?” Na minha ingénua e pouco vivida cabeça na cabeça deles, eu entenderia que ela depois vai a casa do ex entregar uma vez mais as crianças. Na minha cabeça não tão vazia de faíscas entendera “depois vou para casa, para a nossa casa.” Bolas! E eu? Será que ela dera conta de mim? Serei uma personagem da banda desenhada que ele criou com ela?
Espetei-lhe uma unha nas costas “ah, estás aí? Magoaste-me!, fod**” As minhas unhas estão cortadas até à medula, meu querido Henry, nem as devias sentir.
Acende um cigarro “estás a fumar? És parvo? Estás mesmo a pedi-las!”
Henry: Não me chateias a cabeça, ok? Quanto mais me dizem para não fazer uma coisa, mais eu a faço.
Florbela: És mesmo um puto mais puto que um ainda por nascer. Valha-te a sorte, mas não a desafies, lá porque te julgas Rei.
Deficiente
Henry: Florbela, não estou ligado a ti. Tive tinteiros de namoradas antes de ti. Depois da minha separação de 27 anos de casados, ou coisa assim. Não sei porque insistes!
Florbela: Deves ter bebido mais que o Boris Ieltsin, ou deliras mais que um adicto em cogumelos. Só aqui estou porque queres. Tens ou não carácter?
Henry: Não gosto dos teus sapatos!
Florbela: Quero lá saber, sou eu que piso com eles a merda que me aparece pela frente e pelo chão acima de tudo.
O que Florbela devia ter respondido: Chiça, Henry! Já reparaste bem nos tamancos do amor para sempre da tua vida? Parecem umas botas para deficientes que têm uma perna mais curta que a outra, só que no caso dela é nas duas pernas, mas sem a compensação: a compensação de se ter uma perna curta, é ter a outra mais comprida.
Um olho cego tem como compensação um olho visual…tens que colocar tamancos num deles.
Filhos
Acordar às sete da matina, acordar o puto. Não acorda! Tentar acordar o puto ora com festinhas no rosto, ora com beijos, ora com a força dos braços e obrigá-lo a abrir os olhinhos:
Florbela: Bom dia fofo! Vamos para a escola? Acorda, querido! Vá, vamos tomar uma banhoca!
Puto: hmmmm….
Acordar a Borboleta “ Miúda, acorda! Tens escola…vá…ficas a ver aqueles chineses ou Japoneses e depois tens pesadelos.”
O puto levanta-se, despenteado e ainda a sonhar acordado. Banho! Água tépida, shampoo, gel de banho, toalha, cuecas, meias, calças, t-shirt, camisola, casaco, sapatilhas, atacadores, escova, pasta e escova de dentes, pequeno-almoço, pasta nas costas e descer para os descarregar ao passeio onde a camioneta os espera. “Estão prontos?” Sim. O pai na cama agradece a quem nunca foi mãe e desconhece o dom de cuidar de coisas que respiram.
Estão entregues e eu retorno ao pai que ainda não dera conta da mãe nem mulher que lhe tenho emprestado. Espantado? Pois sim!
Não é a Mim Que Queres Espantar!
Porque fumas tanto? Quem te julgas? Alguma molécula protegida neste imenso átomo? Gostáste de ser operado e ficar mais atropelado que um gato na via rápida? És masoquista? Deves ser, para quem se orgulha de partilhar a esposa! Nem pareces ser inteligente. Verdade seja dita: nem tudo que reluz tem brilho próprio. Porque hesitas entre a consciência e a falta dela?
Espanta-me antes de te consumires e me embrulhares na tua roda.
Sem Filhos
Hoje estou sem os putos, foram com a mãe ter com o namorado a Sesimbra. UUFF, um fim-de-semana sem o único amor da vida dele para todo o sempre, URRA! Sem os filhos? Os filhos incomodam menos que moscardos a meio da noite. O moscardo é ELA! No espaço de um primeiro mês e alguns dias, ela resolve ir namoriscar. Não tem saudades dos putos? Ahahahahhaha…tantas saudades como eu tinha quando me alvorava às seis e trinta da manhã para fazer reposição de pastilhas elásticas num hipermercado qualquer em Aljustrel.
Henry: A Raquel usava esse perfume.
Florbela: Eu não uso esse, uso este.
Henry: Ela costumava acordar cedo e fazer ginástica…ai, acordava toda a gente…
Florbela: Eu sou mais de ginástica neuronal.
Arre! Finalmente estamos sem filhos (deles), sem a ex e em vez de irmos escalar a Serra da Azeitona ou passar o dia a fazer coisas de quem nunca teve família, não…tem que recordar a felicidade conjunta remota, ora em Ibiza, ora nas Seychelles, ora a cor do batom que ela não dispensava ao sair de casa. Fico ou vou? Sou lorpa ou estou apaixonada?
Percevas Ou Não Percebes?
Aproveitámos a liberdade para estrangular uns mariscos à beira-mar. Ambos apreciamos as partículas que nos conjugam o olfacto, para além da aproximação do mar, pela liberdade até um pouco ingénua, por não se saber ao certo onde o horizonte se fixa. Quanto mais nos aproximamos dele, mais longe nos parece. Raros momentos estes.
Assim como um puto com uma palhinha nos irrita com aquela sonoridade a inalar o líquido do fundo de um pacote de Sumo, o telemóvel dele toca.
Henry: Então? Está tudo bem? Sim, estamos a dar cabo de uns crustáceos…sim…o puto espirrou?…ó…leva-o ao médico! Ok…está tudo bem, está frio, mas estamos abrigados, e tu? Estás com artrose? Vai ao médico! Que horror!…pronto, o teu namorado, esse gajo, essa besta que cuide de ti!….tá…ela também te manda um beijo. Xau, fica bem e em paz.
Eu não mandei beijo nenhum. Afinal namoro com quem? Com ela em simultâneo? Dispenso! Sou fiel e conservadora e prefiro pêlos, barbas e belezas ao estilo de Al Pacinos, Anthony Hopkins e venha o diabo que é mulher e os escolha. E por favor, quando estou a sós contigo não atendas o telefone a não ser que um dos miúdos seja alérgico a alforrecas, ok?
Bom apetite!
Para ti também! Outro cigarro? Tens cá uma ligação esquizofrénica com a sorte!
Espantas-me!
Fuma!
Mais um cigarro enquanto eu me preparava para uma entrevista para um desemprego qualquer. Outro ainda. “Não consigo sair de casa sem pintar os lábios.” Já pareces uma tal pessoa, diz ele. Tanta idade e tanta carruagem e nunca se dera conta que quase todas as mulheres não abandonam a casa sem batom, nem que seja de glicerina para proteger da secura do ambiente que o nosso namorado recorda. Tudo lhe faz lembrar a dita coruja, senhor! Começo a perder identidade e tenho-a! Há quem tenha poder de no-la roubar, Chiça! Compara tudo à canonizada, nem que seja o gesto de levar o dedo ao nariz, ao jeito de ressonar quando se deitava com um outro de barriga para o vazio…tudo faz recordar a Deusa e Musa.
Florbela: Olha Henry, estou cansada e apertada como vários nós dos atacadores das sapatilhas do teu puto: pára por favor de me comparar à tua ex esposa, seja na cor do batom dos lábios, seja no modo como lava as colheres ou deixa o tampo da sanita no lado errado do teu, ok?
Doença Raquel
Decidi ir para minha casa. Instalei-me num enfarte de tanta doença: ora os cancros, ora a ex, ora os filhos, ora porra! Ora e eu? No meio de tanta doença, teria fobia a tanta saúde? Está bem, que não sou propriamente a Madre Teresa de Calcutá, mas também não sou a ex mulher do Paul McCartney, ainda tenho duas pernas, dois braços, um baço e dois ou mais neurónios. Fartei-me das doenças dele, principalmente da doença chamada Raquel.
Tem Paciência
Raquel: Florbela, tens sido uma senhora, de se lhe tirar o chapéu!
Florbela: Sou simplesmente a pessoa que está com o Henry.
Raquel: Agradeço-te tanto, nem imaginas, Florbela…
Florbela: Agradeces? Em primeiro e último lugar não estou a fazer favor nenhum, nem a ti e muito menos a ti. Tu és a ex mulher dele, sim? Agradeces o quê? Por um daqueles acasos que se diz não acontecerem ao acaso estou a fazer-te algum favor? Mete nessa cabeça que não tem apenas couro cabeludo que tu já não és mulher dele. Cada macaco no seu galho, neste caso, cada consciência no seu patamar.
Por favor, eu é que te agradeço se fores ter com a tua vida e deixasses a minha com o que me calhou nas linhas da mão. Ele é que te escolheu, sabe Deus porquê. Até Deus é cego, não é verdade?
Uma Ex Inteligente
Sabes, Belinha, o Henry tem muitos problemas de saúde, ele nunca conseguiu ultrapassar certas épocas do nosso passado…ai – e aquele ar de quem tem pouco espaço no espaço aéreo – sabes…ele nunca perdoou as minhas infidelidades, nunca ultrapassou a separação…
Florbela: Pois.
O que Florbela devia ter dito: Olha uma coisa, antes de vos conhecer eu já existia. Posso ter esta cara de cantora dos “queijinhos frescos” mas olha que devo estar bem mais fermentada que vocês dois. Sou simpática contigo, porque a minha bisavó educou os descendentes de forma a parecerem uns anormais. Mas não somos. Parecemos! Tomas-me como o quê? A ama-seca? A Dama de companhia? Olha minha querida amiga por acréscimo, serei tudo isso, mas por amor, não por obrigação. Sabes o significado disso?
Não preciso dos teus conselhos, eu tenho os meus e bem mais definidos que os teus. Tenho inteligência, sabes o que isso é? Claro que sabes, os que se anulam por ti o são, mas não te esqueças que nem toda a humanidade tem a cabeça no órgão genital.
A Família Dela
Olha, a Raquel ligou agora mesmo para nos convidar a ir a casa da irmã para o aniversário do sobrinho dela, do meu também. Queres ir?
Florbela: Está bem, afinal de contas não estamos em época de saldos, estou livre.
Caraças! Porque tenho que ir aos eventos familiares dele e dela como se ainda fossem um casal unido por Deus ou pelo Registo Civil? Chego a acreditar que para além de um rosto pouco inteligente como um culto devorador de enciclopédias, também tenho um rosto parecido com aqueles que nem um título de um jornal regional lê o horóscopo.
Ai quem me dera ser mais burra para que os inteligentes dessem conta de mim. A vida é injusta, para alguns! Não me espanta!
Ela Em Casa Dele
Lá está ela em casa dele. Eu de cuecas. Diz que vai levar ou buscar os putos, mas fica no mínimo dos mínimos três horas, isto se não lhe der os sonos antes. Sim, sou civilizada ao ponto de acolher duas almas com filhos. Sim, mas que não abusem do meu estimado nariz. Ora vejamos: um casamento tem as suas cláusulas. O divórcio igualmente. Concluindo: Quem não cumpre as alíneas do casamento como quem cumpre um sinal de stop, não há-de nunca cumprir as alíneas de um divórcio. Eu nunca assinei nem uma coisa nem outra, mas tenho a consciência do que é ou não vetado. E são essas descontraídas como as nuvens que aparecem e fazem chover pelo gosto da água de quem não sente sede que os sabem levar. Os levam, aos distraídos sem abrigo.
Estes dois ditaram as suas próprias leis. Quem cumprir será aceite, quem não obedecer será apedrejado e denegrido na praça pública.
És Assim Tão Costura?
Fomos levar os filhos deles a casa dela. Entramos e ficamos. E eu cá para os meus botões e costuras: ai quem me dera costurar uma manga, um cós, uma costura Inglesa a sós, ai quem me dera ditar os meus direitos e leis. Mas nunca fui casada nem filhos rematámos.
Podes Entrar e Ficar
Titi! Mensagem recebida no telemóvel do Henry. Que será desta vez? Um dilúvio na sanita? O carro carro está morto? “Olá. O pequenote está com uma unha encravada no cabelo espigado da nossa filhota. Dá para passar aí agora?” Leu-ma ele a mensagem, nada tem a esconder-me, o que é delicioso excepto em casos como, sei lá, de ainda ter preconceitos em relação ao feitio das curvas das orelhas ou outro complexo qualquer. Quanto a esses casos não se deve ser-se honesto, todos temos segredos, não é? A honestidade é uma qualidade que se pode facilmente transformar em monstros de mágoas. Nem todas as qualidades são qualidades, algumas aleijam e nem sempre temos à mão Betadine ou gaze.
Raquel: Passo aí às duas!
A senhora diz, a senhora manda, a senhora pode.
Henry: Ok, na boa, estás à vontade.
Coriscos! Logo agora que ia sugerir ao meu queriduxo um pequeno-almoço em cima das almofadas, atirá-las às fuças um do outro como dois adolescentes (um deles nunca deixou de o ser, aliás) e banharmo-nos com as penas de avestruz. Que pena! Que pena! Lá vou eu ter que novamente correr como a Rosa Mota para a casa-de-banho e levar no trombil com aquela foto à entrada à espera de me dar não só a volta à tripa e tomar um banho e estar minimamente apresentável para receber a “visita.”
Quinze horas e trinta e oito. A campainha grita e a porta move-se “OLÁ! POSSO ENTRAR?” Claro que podes, já entraste como entra a chave numa fechadura…e já agora aproveita e acaba de lavar a tigela de cereais ressequidos que o petiz usou há três dias e ainda está na mesa da sala.
Henry: Olá, os putos onde estão, não vieram hoje?
Raquel: Ai não…eu não te disse? Ficaram em casa da Maria e vou agora buscá-los. Vim só buscar Betadine e amaciador de cabelo para a nossa borboletinha. Olá Florbela! Estás boa? – dezenas de sorrisos – desculpa lá esta invasão…
Pois invades mais que o Napoleão alguma vez o fizera. A gente desculpa sempre, é sempre educadinha e respeita as leis dos outros. E as minhas? Espanto-me!
Florbela: Sim, Estou óptima, mas com sinais de gripe A…se calhar não deves vir cá nos próximos dias…para teu bem. É claro.
O que Florbela devia ter dito: Sim, estou como uma andorinha na Primavera que se estatelou no chão por não ter calculado bem o voo e com pena de não ter penas no corpo e na pele, a das almofadas da minha luta com o teu Henry. Devo gostar mais de ti do que o sol gosta do ozono, ó Henry. E nem me espantas!
Saiu às dezassete horas e cinco minutos da casa do ex. Nós ficamos, mas com a “fantasma” a pairar, ora nas estantes, ora em carne, osso, pele e voz. Como poderá tal permitir a criatividade de duas pessoas que estão a tentar formar algo juntas na intimidade (pelo menos uma delas).
Isso, meu asno! Acende mais um cigarro! Exalta-te! Os pulmões e a saúde são teus, então porque mos exaltas e agrides?
Apetecia-me Jantar Contigo
Quero jantar fora, pronto! Hoje mandou eu!
Henry: Queres quê? Não é só querer. És tão miúda…tão imatura…parece que não sabes que tenho cá os miúdos!
Florbela: Sim, tens sempre, sempre, sempre cá os miúdos. Porque não pedes à Raquel que fique com eles umas horas, pois quando ela quer ir namorar ou lá o que ela faz com aquele que mora a centenas de minutos daqui, bem que to suplica como se estivesse à entrada da Igreja dos Congregados. Deixa de ser banana, pá! Ou pede ao teu segundo mais velho, que sei que é um querido e nos compreenderia (me compreenderia).
Exaltou-se! Falta de comunicação em linha. Santo! Não posso impor as minhas vontades? Tenho que andar às dele(s) e não posso agora falar mais alto que a Júlia Pinheiro e argumentar como o advogado do Pinto da Costa?
Henry: És muito egoísta! O meu segundo filho mais velho tem a sua vida e os seus amigos, não é obrigado a cuidar dos irmãos mais novos, ok? Aliás a Raquel não pode ficar com eles e já estás careca de saber que ela é a mãe dos meus filhos e a única mulher que amei, ouviste?
Não tenho mesmo hipóteses nenhumas. Tanto egoísmo…a tua vida é também a dos outros. Sai desse buraco negro de uma vez por todas e entra em órbita, choca com outros planetas, outros mundos, outras estrelas, mas desta vez escolhe estrelas que não sejam decadentes.
Florbela: ok, era só uma sugestão. Já ando contigo há dois meses e algumas coisas e só abocanhámos fora destas paredes uma ou quatro vezes, contando pelos dedos de uma das tuas mãos. Seria legítimo. Quase me fazes sentir uma boa amiga da tua família, daquelas que servem para tudo: cuidar das crianças, aspirar, lavar a loiça, meter a loiça na máquina, ligar a máquina, retirar a loiça da máquina, arrumá-la, lavar os sanitários, lavar a roupa, pô-la a secar, retirá-la, fazer a cama e nem moro contigo sequer. Moro às vezes.
Sim, sinto-me uma cómoda, como aquela que tens na entrada da tua casa, onde tu e a Raquel já se acomodaram, mas eu não estou cómoda, aliás, estou muito pouco cómoda, e tenho as gavetas vazias e cheias do vosso pó.
Afinal porque fico ainda?
Mais uma vez jantamos todos juntos, fazemos serão, conversaram, recordaram seus episódios do passado, enfim, lindo! Afinal de contas não estou tão desesperada como uma criança norte americana por um hambúrguer, mas então porque me petrifico e resisto?
Afirma que nunca serei um outro amor da vida dele…até uma ponte de betão se sentiria insegura ao suportar a passagem de uma bicicleta carregada de algodão.
Aprende Com os Mais Velhos!
“Fod**! Já não estou mais que fartinho de te ensinar que para se lavar esse tacho é com a zona amarela da esponja?” Quem diria, tão meticuloso, pois a primeira vez que entrei nesta cozinha, esta banca parecia os destroços das Torres Gémeas do World Trade Center, o bolor acumulado era suficiente para abastecer de penicilina as indústrias farmacêuticas de todo o mundo. Restos de comida ressequida que nem com uma trituradora o milagre da limpeza mereceria um santuário.
Florbela: Olha Henry! Eu sei que és mais idoso que eu e tens mais experiência do que qualquer laboratório de ratinhos, mas antes de me conheceres eu não estive em coma até ao dia em que nos cruzámos. Fica sabendo que na minha imatura fase da pré adolescência eu já limpava muita sanita e bancas, pois ajudava a minha mãezinha nas higienes. Por isso não me pintes mais nenhum fio do meu cabelo de branco, ok? E mais: uso a parte verde da esponja porque gosto da cor da esperança.
Mas…a Raquel que era/é quase inquilina assídua desta residência, nunca teve a destreza ou a esperteza de remover aqueles destroços nojentos? Pela saúde e bem-estar dos filhos de ambos? Tudo pelos filhos? Estariam à espera da donzela para todo o serviço para dar algum brilho e cheiro à casa do “destroçado”.
E lá foi ele furioso, aborrecido, chateado, gesticulando e praguejando, só porque foi atingido pelas minhas balas perdidas. Nunca me ouve, nunca tenho razão, mesmo que a tenha, só no ralo da banca.
Tanto Pó!
“Fod**! Não é assim que se limpa o pó, caral**!”
Florbela: Então limpa-o tu, snifa-o, faz dele o vosso jantar de família, deixa-o aí que te faz bem aos pulmões, faz o que quiseres, mas não me agridas como se te estivesses a projectar-te ao espelho, ok? Fica bem, estou mais cheia de ti do que se tivesse ingerido feijoada brasileira pela manhã! Estou cheia de tanto pó e de tão pouca cera da tua parte – Cera para a madeira, que reluz e cheira bem, não da cera dos teus ouvidos – Bolas homem, parece que estás constantemente com os sintomas pré-menstruais. Credo! Chiça! Ah, e já agora bom dia, sim?
ADEUS!
Adeus ou Ciao!
Adeus. Eu diria antes como os Italianos: “Ciao” tanto significa “olá” como “Adeus.” Os dias vão passando após a cena do pó, entre outras. Designa-os Henry “Dias de Amuo de Miúda Imatura Pouco Vivida e Insegura.” Assim como “Ciao” é uma palavra ambígua, “amuo” também o é segundo a perspectiva do Henry.
Amuo significa para mim, Florbela, quando sentada numa extremidade do meu sofá aceno como uma bandeira de um club de Futebol, o boneco preferido do Elias, o meu cão rafeiro, boneco esse mais nojento que o cabelo de um Rasta, com uns olhos esbugalhados até ao pescoço e a cheirar a refinaria de Leça da Palmeira. É um boneco descolorado, feito de borracha e está mais esborrachado que os tomates dos agricultores quando se zangam com os Ministros da Agricultura. Aceno a boneco de borracha, o Elias lança a língua mais depressa que as patas dianteiras e abocanha o ar. Atiro o boneco/bola/esborrachado para um canto qualquer e o Elias fica mais desnorteado que uma bússola sem pilhas, fareja, fareja, rosna, espirra, espalha baba, não encontra o nojento brinquedo preferido. Amua o Elias. Amua e muito. Eu sorrio-lhe com sarcasmos “queres o boneco queres? Vai buscá-lo, encontra-o ó monte de ossos peludo”, deita-se na outra extremidade do sofá, regula um dos olhos em direcção aos meus, arregaça quase imperceptivelmente um canino e um outro e não me fala! Não me fala durante dias! Isto sim, é amuo.
Como é que alguém com tanta rodagem, tanta psicologia, vivência, análise humana ainda não distingue nem é capaz de atravessar para além do que parece óbvio, banal, simples. Alguma vez ouviste falar em mágoa? Sim, é silenciosa, por isso te parece amuo.
Espantas-me!
Pazes em Pares
Recebo mensagens para o telemóvel, conversas pelo Messenger: ainda estás amuada? Afinal a esperança do outro lado da esponja ainda vive, ainda espuma e tira gorduras. Ainda me sinto desacreditada como aqueles produtos que retiram rugas em algumas semanas. Mas que me quer ele? Insulta-me mais que uma professora quando um pupilo erra a mesma conta vezes sem conta. Devem ser as minhas pupilas, as minhas retinas que comandam a química desorganizada por causa de uma pessoa que traz mais bagagem que o Marco Pólo e mais revolta que o Rambo.
Peguei no meu automóvel e lá fui rumo a sua casa. Não posso crer!!! O carro dela estacionado mesmo em frente à porta. Já não me bastou ter memorizado a matrícula dela para me deparar com estas preparações da vida, pois sou péssima em números, como ainda tenho que estacionar o meu carro quase em minha casa. Toco à campainha “está? Olá Florbela! Sobe!” Sobe? Mas havia de ficar em terra a que propósito? Se eu fosse como ela provavelmente teria perdido um avião e naturalmente ficaria apeada, mas eu estava de retorno a casa do meu Henryzinho! Subi. Ela de avental, mesa posta para cinco. Ele no sofá. O puto alapou-se a mim como uma ventosa risonha.
Henry: Olá, então como estás? – beijo.
Florbela: Estou bem, tive que estacionar o meu carro perto do bairro e fui abordada por dois arrumadores, mas saquei de um brinco e disse-lhes que estava infectado com cera de há sete meses – beijo.
O que Florbela devia ter dito: Francamente, estivemos aborrecidos como dois sócios por cotas e agora esperava um jantar com velas e música suave, mas não… tenho que ouvir a voz da tua ex que se ouve desde o centro da cidade de Évora! Quanto aos pequenos, claro que os adoro, mas por favor, mas umas horas a sós? Eles amanhã têm aulas, passam o dia contigo, morrias se não os tivesses à mesa por mim? Sim, por mim, sou uma mulher, a filha também de alguém, a ex também de alguns, a que está contigo neste instante ínfimo de tempo, lembras-te?
Raquel: Fico tão feliz por terem feito as pazes…fico mesmo!
Nem comento, faltam-me os neurónios, teria que os preparar e bem para conseguir argumentar observação tão intensa.
Saíram de casa às vinte e três e cinquenta e cinco.
Henry: A Raquel cozinha bem, não achas? Ela adora aquele prato, fui que ensinei. Os putos também gostam.
Vou dormir. Até amanhã.
TRIIMMM!!! TRIIIMMM!!
Henry: Tou? Sim, estava a dormir…sim, ok, depois vou contigo então…sim…não sei…às onze? tá…era a Raqu…
Florbela: Eu sei, eu ouvi a conversa. Pediu-te para levares o carro à oficina às onze e qualquer coisinha…
Cá para nós…às treze e doze ela apareceria e teria o seu escravo para todo e qualquer recado. Assim como quem sonha com uma praia de areia branca, céu azul e mar verde, mas sem maremotos, ainda me pareceu ouvi-lo recusar “Ouve lá ó Raquel? Mas pensas que tenho a tua vida? Melhor dizendo, pensas que não tenho vida? Olha lá, já que tiveste tantos “amigos” enquanto estivemos unidos pelos anéis doirados, porque não fazes deles agora os teus escravos, hein? hein? caso ainda não te tenhas dado conta, tenho aqui ao meu lado uma mulher e estou mais disposto, como um trabalhador está disposto a ser promovido, a passar o dia inteiro com ela e ir sim com ela almoçar, lanchar, namorar e essas coisas que se costumam fazer com quem merece, ok? E por favor, hoje não me aborreças mais a não ser se algum dos nossos descendentes se tenha cortado com uma faca ou ter sido mordido por um cão raivoso, compreendes? Deixa-nos em paz! Estamos separados!
Treze e vinte e seis toca a campainha, a porta range, ela range, eu já vestida despeço-me deles.
Raquel: Não vens connosco? Vem lá daí. Depois ainda podemos ir almoçar, lanchar, buscar os putos e jantar.
Florbela: Obrigada, mas tenho que ir ao oftalmologista, depois tenho que ir ver se a minha avó já tomou a aspirina, por causa dos entupimentos venosos.
Henry: Não vens? Porquê?
Porquê…porquê…cada vez me espantas menos!
Logo não janto cá, aviso eu! Porquê? Porquê?
Confidentes Até aos Dentes
Eles contam-se tudo um ao outro. Tudo! São o confessionário secreto ao fundo da Igreja, ora veste ela o colarinho branco, ora o quis ele apertá-lo muita vez naquele pescoço dela. Ela sabe tudo sobre a minha “vida”com a do Henry: as nossas zangas e suas causas, o que jantamos ao jantar e ao almoço (quando ela não está na mesa de igual modo), o que ele pensa de mim e como eu deveria de ser, mas que tenta limar as arestas, mas nem se dá conta que já as tenho bem limadas e polidas, que não gosta dos meus sapatos e de algumas calças que uso, que não gosta das minhas brancas e que gostaria que eu fosse como ela.
São confidentes até às gengivas dos dentes! A última pessoa que menos faria questão que soubesse sobre as nossas vidas, da minha vida é a primeira e das únicas a ter esse privilégio. E ex dele! Até caí nas manhas dela, devo ser muito estúpida ou muito estúpida. Será que me foi concebida alguma missão que terei que cumprir nesta vida? Será que estou a ser punida por ter morto milhares de focas bebés de pelo branco e fofo em uma vida paralela a esta? Será?
Toquei à porta. Não, ainda não tenho direito a chaves, nem à do rés. Foi ele que atendeu “Sobe!” Entro na entreaberta. Ambos estavam sentados na mesa, cúmplices como dois seguranças de supermercado a repreenderem uma velhinha a roubar uma costeleta (costoleta), conversavam com um silêncio quase estrondoso, como bons amigos. Já estava de saída, sinaliza ela. Porque será que sempre que chego ela está sempre de saída? É porque está sempre lá? Mas, se diz que está de saída porque não sai? Porque está sempre lá e de saída? Entra e sai, entra e sai, entra e sai? Sempre que eu entro ela por acaso está de saída?
Já não suporto aquele sorriso de Santa Colada. Só vejo flores em lugar de dentes e na testa o símbolo da paz. Será santa ou sonsa?
Falavam de mim “ a Florbela não me entende como tu…não sabes aquelas pequenas coisas que nem precisava de te pedir, entendes?” e ela “percebo querido, percebo, nós tínhamos uma relação muito especial, eu sei…mas tens que te libertar de mim de vez, eu tenho um namorado, é para teu bem…esquece o passado!”
Ele até podia esquecer o passado como alguém com a doença de Alzheimer se já não visse todos os dias a luz que brilha de uma estrela que está morta há vários milhares de anos-luz e ainda assim nos engana, ainda a conseguimos ver, embora ela já não exista.
Hoje também não janto, está bem? Tenho que limpar os ouvidos ao Elias.
Na boa, diz ele.
O Mais Velho
Henry: Amanhã o nosso mais velho vem cá a Portugal passar uns dias.
Florbela: Finalmente vou conhecê-lo. Pelas fotos é parecido contigo, principalmente no feitio das narinas.
Henry:…nã – acompanhado de um sorriso carinhoso como se estivesse a ver um potro a nascer – nã…é parecido com a mãe. Tem os olhos dela, meigos, bonitos.
Meiga sou eu, embora os meus olhos nesse momento lhe tivessem “retinado” umas flechas castanhas. De seguida retino sem querer uma das muitas fotos da felicidade conjunta entre os pombinhos.
Quando o Henry fala dela é como se estivesse a sobrevoar um campo de papoilas e de cada papoila nascesse um arco-íris. Como todos sabemos existe um pote com um tesouro debaixo de tanta cor. Suspeito que o Henry mistura cogumelos esquisitos todas as manhãs no leite com café.
Henry: Por isso já sabes, amanhã vamos jantar a casa dela, ok?
Claro. Pelo filho ausente é legítimo como conduzir com carta que se acumulem novamente como uma família legalmente unida. Desta vez em casa dela. É invariável. Perdi a conta, mais que as do meu colar, das vezes que jantei, lanchei, fiz serão, etc em casa dela. Como é usual a amiga está informalmente convidada.
Desta vez levo o Elias, para que coma os restos e as sobras que me irão sobrar certamente. Entretanto recebe uma, duas e três mensagens. Não questionei nem me disse quem as enviou, terá o puto uma disenteria? Furou o pneu do carro e não tem quem a acuda? Não, preferi imaginar eu:
1ª sms: Olá Henry, meu estupor!! Sou eu o João. Como tens passado? Quando voltas ao teu país para mais um revisão à tua saúde? Abraço e as sinceras melhoras! Estás por cá?
2ª sms: Henry, meu cabrão! Nunca mais disseste nada. Quando vens cá jantar? Ouvi dizer que agora andas com um miúda gira como o trigo, mais nova que tu, gostava de a conhecer, pá! Dá notícias, ó meu grande suíno, ok? Abraço, Alex.
3ª sms: olá paizinho! Não te esqueças que amanhã aterro no Porto às 12:30. Vem antes tu buscar-me, senão a mamã só aparece lá para as 13:56. Beijo do teu grande filho.
Família
Henry: tá…olá…tás boa? Claro que o vou buscar…também queres ir? Então vê lá se estás aqui a horas…sim…sim…
Ela para estar aqui a horas terá que atrasar os ponteiros do relógio umas boas voltas. Até os seus ponteiros giram em redor de si. Poderá a pontualidade dizer assim tanto da personalidade e do modo de vida de cada um de nós? Do quanto somos egocêntricos, o quanto obrigamos os outros a viverem a vida ao nosso ritmo, virados só para a nossa hora, como se todos os outros relógios respirassem consoante a vontade de cada pulso. Para uns a vida adianta, para outros atrasa?
Henry: Vens também Florbela? Preciso de saber por causa dos carros, se precisamos de levar mais do que um.
Florbela: Hmm, eu gostava muito de ir também, mas tenho que acertar as pontas do cabelo do meu cão, pois gostava que ele também fosse ao vosso jantar de recepção.
Henry: Tens sempre desculpa. Tens algum problema? Porque a Raquel também vai? És tão ciumenta, tão insegura. Não tens mesmo auto-estima…enfim, não vás.
Florbela: Ciúmes? Eu? Mas vocês são divorciados e imensamente amigos. Não há nada mais natural que a vossa atitude tão civilizada! Apenas não dormem juntos nem pagam a mesma renda…de resto, pelo amor de Deus, estarem sempre juntos é tão natural como transpirar quando corremos uma maratona. Ciúmes? Tens cada uma homem…ahahahaha
O que Florbela devia ter respondido: Ciumenta? Não, mas a sua presença quase milimétrica tanto no tempo como no espaço das “nossas” vidinhas, a tua única mulher da tua única vida, incomoda mais que um mosquito às quatro da manhã, naturalmente. Questiona-o a alguém com a sensatez de um matemático.
Henry: Já estou farto de te dizer e sabes o quanto sou sincero e honesto que primeiro está a minha família, depois a família e a seguir a família, ok?
A tua família é a Raquel, ou porque quando estás no teu país por questões aborrecidas, quando contactas os teus filhos que ainda vivem com a mãe chamas-lhes “família”, mas quando falas com os outros dois que não estão já debaixo das saias da dela tu referes “estou a falar com os meu filhos.” Porquê? Nem dás conta disso, mas eu dou e ainda me dizes que não sou boa observadora.
Mas porque fico? Receio que esteja a pagar por pecados de outras vidas contigo. Será que te atropelei numa passadeira e fugi sem sequer olhar para trás? E agora por não ter olhado para trás a minha vida contigo transformou-se em sal?
Não me espantava nada!
Jantar de Recepção
Recebo mensagem dele: já fomos buscar o matulão, está com aspecto excelente, vamos daqui a pouco para casa da Raquel preparar o jantar, embora me sinta bastante cansado…aparece quando te apetecer.bj
Ainda demorei a acertar as pontas do pelo do meu Elias, mas ficou luzidio como as barbatanas de um golfinho. Estou bonito não estou, pergunta ele. Tu és sempre lindo, mesmo sendo mais feio que uma erva daninha.
Fui ter a casa da Raquel, embora com o acelerador a teimar que nem uma mula a ser empurrada por dois tractores. Mas fui, aliás, fomos que o Elias também é gente! Toquei e abre-me a porta o petiz, abre o coração, o sorriso e parece uma lapa agarrada a uma rocha para toda a vida quando me cumprimenta. Ainda dizem que não se aprende com os mais novos?? O pai deste beija-me e oferece-me uma cerveja. Cumprimentei o desconhecido, o mais velho.
Henry: A Raquel ainda está a trabalhar, por isso vou adiantando o jantar.
Coitado, cansado, mas ainda cheio de tarefas. É para o que servem os ex maridos…fui dar um beijo à Borboleta e ao outro rapaz, estavam ambos colados como rezina a uma árvore ao computador. O tempo passava e nada de Raquel. O Henry sentia-o já ansioso como quem espera nas salas de um centro de emprego ou na segurança social. “fod**, a vossa mãe nunca mais chega…” Num tom de agressividade.
Florbela: Tem lá calma, não te sentes bem na nossa companhia? Estão aqui os teus filhos todos e eu! Deves ter reparado que estou aqui como um namorado/marido repara que a mulher/namorada mudou de penteado…
Henry: É sempre a mesma merda, nunca tem horas…foi sempre assim – palavras ditas com aquela expressão carinhosa de quem assiste ao nascimento de um Potro – foi sempre assim, ai, ai…
Andava irrequieto pela casa, angustiado porque a dona da casa ainda não havia chegado. Angustiado como quem entra num avião pela primeira vez depois de ter visto um filme de acidentes de aviação na noite anterior. Porque não aproveita e troca uns mimos comigo? Porque não conversa com os filhos entretanto?
Vinte e uma e quinze minutos: Ela telefona “Olha estou mesmo a caminho, ide fazendo o jantar, está bem?” O jantar já está resfriado, querida…
E o teu “marido” está a caminho de uma grande ansiedade se não regressares dentro do tempo do suportável para que não entre em depressão.
Sunset
Abre-se a porta, o Henry até mudou de expressão. Ficou com menos rugas.
Henry: AHH, finalmente chegou a Madame Sunset!
A Madame quê? Sunset é o último nome dele…bem, estou a ficar mais confusa que a entrada de uma auto-estrada com várias direcções! Ela é a senhora do meu Henry? A Dama da Corte? Bem, concluindo por este prisma eu serei uma das vassalas, uma Dama capacho. Afaguei o meu Elias para disfarçar o meu desagrado e alguma lágrima descuidada. Grandes cumprimentos, abraços, beijos entre todos.
Começo mesmo a acreditar em karmas: será que em uma vida anterior lhes arranquei a sangue frio unha a unha? Ter-lhes-ei burlado todas as economias de anos de labor, dores de costas e muito suor nos seus oitentas e tantos, quando nessa altura finalmente poderiam realizar os seus sonhos, tais como recorrer a cirurgias estéticas e a viagens ao Matchu Pitchu? Será que estou a ser punida malvadamente?
O jantar iniciou-se, eles recordando o passado feliz (?), até que Henry se descai: “ …e o coração Raquel? Roubaste-me o coração…”
Fiquei espantada, afaguei uma vez mais o meu Elias. O meu coração bate por ele, pelo menos uma parte e nem isso respeita, o ingrato? Afinal que faço eu aqui neste jantar? Arrumo a loiça? Levanto os pratos? Aqueço a cadeira?
Depois admiras-te e acusas-me com agressividade que sou ciumenta e insegura, sendo esta a consistência que me ofereces? Assim tão descaradamente como quem é apanhado a roubar gelo no Pólo Norte? Pois…dás-me o cimento, mas não a estrutura e este fica mole e vai secando sem forma como as obras de arte que vemos por aí.
Florbela: Vou para casa, não vou dormir contigo esta noite!
Henry: Raquel…desculpa, Florbela, porque te vais embora?
Florbela: Ainda perguntas? Espantas-me! HENRY, desculpa, ELIAS, vamos à rua!!
Já não é a primeira nem a última vez que o Henry me chama Raquel…Bolas! Eu já tive lâmpadas de namorados e nunca lhes troquei os nomes!
Henry: ok Raquel…desculpa…Florbela…como queiras, mas já sabes a minha porta está sempre aberta para ti!
Não só para mim. Boa noite a todos!
O Aniversário da Sobrinha Dele
“Atende tu, não me apetece atender a Lara.” Atende “tu” quem? Eu Florbela ou ela Raquel? Sim, porque os hábitos são mais difíceis de retirar que uma nódoa de molho de Francesinha. Hábito “Raquel” e hábito “de entregar o telefone à mulher quando a este apetece mais acordar às seis da manhã para descascar feijão verde a falar com a cunhada. (Sim, ela está mais uma vez em casa do Henry e comigo atrelada…sim. Espantoso, não é?)
Raquel: Está lá? Olá Lara, há quanto tempo!! Estás boa? Ai que saudades…ehehhe….ah sim? Eu soube….ela também te digo, tinha energias muito negativas…pois era. Mas adorava aquele vestido que levou ao casamento do nosso cunhado, lembraste? Sim…sim…ai bons tempos…sim, estou em casa do Henry. Está um bocado cansado, para a semana lá terá que ir a Bruxelas novamente fazer os exames de rotina…enfim…ó Henry, a Lara quer saber se vais amanhã aos anos da nossa sobrinha à Quinta. Ele afirma. Olha Lara adorava ir, a sério, tenho tantas saudades vossas? Eu vou, pode ser?…tá beijocas, até amanhã!”
Como assim? E ele impávido e parvo! Se fosse homem como um homem teria dito logo: “Vais onde? Olha lá, a pessoa mais próxima de ser convidada para esse tipo de evento familiar seria a Florbela, não achas? Não tens vergonha? Estamos divorciados, lembraste? Deves ter um QI a funcionar a 1 bite, no mínimo!” sonha Florbela, sonha…
A mulher francamente, não deve conseguir distinguir um pote de lixívia com uma garrafa de água destilada: ELE foi convidado pela mulher do irmão DELE para o aniversário da sobrinha DELE. DELE. DELE! Ela não foi convidada naturalmente por já não ser esposa DELE, mas como uma criança mimada enfiou um chupa-chupa na bocarra e pôs uns totós em forma de passarinhos e posso quero e mando “TAMBÉM QUERO IR!!” E foi. E foram. Lembraram-se de mim, principalmente ele, como um bêbedo se lembra que deixou a chave de casa em casa, quanto mais onde é essa casa. Não fui, mas foram como uma família que se esquece que já não a carrega. É por causa dos filhos, pois!
Chegaram às duas horas da manhã. E eu em casa, à espera de sua Excelência, a desconvidada, ainda sem direitos, a esquecida em cima da cómoda da vida dos dois, sem chaves nem portas, só vazio.
No dia seguinte alguém da família dele se lembrou que afinal eu não era imaginação nem fruto caído no meio de folhas secas. Fui convidada para a segunda maratona da festa. Como um terramoto ou um torcer de tornozelos nunca estão previstos, esse segundo evento foi casual. E lá fui eu com o Henry, a namorada, a segunda mulher. ”Que sorte este gajo tem, porra!” Devem ter pensado os machos presentes. “Num dia traz uma, no outro traz outra, bolas, sortudo!”
Chegámos a casa às três da manhã.
Mães
Henry: Se fosses mãe saberias o que é ser mãe. Não tens experiência do que é tratar de uma criança, uma pessoa, etc.
Florbela: Desculpa Henry, uma mulher sobe de estatuto quando é mãe? E se não puder ter filhos? E se não os quiser ter por não ter condições ou aptidão? E arranjar um pai de jeito? Sabes, se eu quisesse subir de “estatuto” já o teria feito, mas sempre tive algum respeito por quem vem ao mundo. Sim, a Raquel tem filhos, mas…é melhor que eu ou mais importante só porque não tomou a pílula?
Henry: Mas é a mãe dos meus filhos, logo tem outro estatuto!
Florbela: Queres que te engravide? Melhor não, irias ter uma surpresa quanto à qualidade das mães dos teus filhos.
Não entendo estes que se dizem mais velhos e com experiência de vida. Ele não lê os jornais nem as notícias que pairam pela boca e pela vida? Há mães que afogam os filhos, os queimam em água a ferver ou com pontas de cigarros, que os deixam sós em casa sem um naco de pão, que os violam, que os espancam…isso são mulheres ascendentes a mulheres? Espantas-me cada vez mais Henry! É isso que vês em mim? Uma criança com dentes de leite à espera que seja derramado?
Espanta-me! Uma vez na vida!
Chocolate
Puto: Florbela…tou aflito….
Lá vou eu a correr com o pirralho para a casa-de-banho, senta-se e fecho a porta, esperando que me chame assim que termine o produto final iniciado na bocarra. Entretanto observo aquela foto que está pendurada mesmo ao lado da porta, o casal vestido à moda antiga. À porta dos wcs? Bem…esquece Florbela…
Demora um bocado. O cheiro começa a assemelhar-se ao das indústrias celulares.
Florbela: Já está pirralho?
Puto: Não…tá quase, já tá.
Florbela: Posso entrar?
Puto: Podes Florbela.
Minha Nossa Senhora dos Odores! A criança come produto final? Fecho os olhos como se estivesse a levar com chuva ácida, retenho a respiração como se tivesse o nariz do tamanho da Jennifer Lopez e limpo o rabiosque do petiz.
Florbela: Já está. Agora pira-te! Para longe!
Agora vamos até ao café que o teu pai não tira os dedos nos ímanes do teclado.
Puto: Paizinho, posso ir ao café com a Florbela? Posso comer um chocolate?
Henry: Se ela não se importar, mas nada de chocolate. Florbela, vai à minha carteira e tira o que for preciso. Até já! Beijo.
Até já! Beijos.
Puto: Quero um chocolate!
Florbela: O teu pai não me deixa dar-te chocolate. Pede alguma coisa que não te faça mal ao estômago nem à língua, entendido?
Puto: Quero um chocolate!
Florbela: Já disse que não, ok? Não sejas teimoso nem mimado…
O puto começa a olhar para mim com ódio e a mudar de cor, ora de amarelado para rosado e finalmente vermelho escarlate! Cruzes credo, confesso que tive um certo medo do pirralho. As crianças também sabem ser mazinhas, como naquelas notícias que se ouvem por aí em que raptam bebés e depois fazem grandes atrocidades com eles…ou…estarei também a ser castigada por um pecado de outra vida anterior com esta amostra de gente? Que terei feito eu desta vez? Deixei-o preso numa cave às escuras durante quatro anos, apenas com um feixe de luz durante cinco minutos por dia para que pudesse visualizar a ratazana ou o rato que lhe calhava na ementa? Será?
Pega lá o raio do chocolate!! Ai de ti que quando chegares lá em cima contes ao teu pai…até de meto dentro de uma cave às escuras!
Puto: És mesmo fixe Florbela.
E limpa as fuças entes de entrares em casa, porque parece que tens produto final na boca.
Amigos Sinceros
Toquei à porta. Ele abriu-a.
Henry: E então o que lancharam? Um croissant e uma meia de leite?
Puto: Sim e eu comi um compal e um bolo de arroz.
Voltou a sentar-se. Lá estava ele no seu site preferido. Sentei-me a seu lado…sei lá, para namorar ou conversar um bocado.
Henry: Olha estás a ver este tipo, é o tal e tal, é cheio de pasta, ele obra dinheiro…olha, esta é minha amiga de infância, tem não sei quantas lojas…uma gaja do caralh**. Este é o tal, esta é a tal que tal. Este é um porreiro. São todos meus amigos de infância, sabias? Sim. Mas então porque nunca os vejo? Porque nunca se encontram?
Florbela: Eu sei a vida desses teus amigos todos, o dinheiro que têm, mas não sei nada deles. Porque nunca os convidas a vir cá ou eles a ti, já que são amigos reais e teimam em se tornar uns cubículos?
Henry: Lá estás tu? Agora não posso ter amigos? Nem amigas? Queres exclusividade?
Florbela: …..eu disse isso? Eu não quero que tenhas amigos? Já que tens tanta imaginação porque não escreves um livro? É que tens uma tendência bestial para inventar realidades?
Mais uma zanga e das do tamanho do inchaço do aborrecimento da minha cabeça. Será que ele não entende que soma as horas dos seus contados dias em frente àquele objecto e para quê? Para ler palavras de apoio e de eterna e verdadeira amizade dos seus grandes e longínquos amigos? Mas onde estão essas pessoas? Tanta valorização a quem não está sequer dois minutos a aturá-lo, e eu que já quase vivo com ele a única coisa que repara é nos meus sapatos, nas brancas do meu cabelo, nos pneus que surgiram em algumas semanas e na maneira como não consigo aspirar a casa ou pegar na vassoura e outros defeitos que só ele consegue atacar. No entanto os verdadeiros e sinceros amigos são aqueles pobres que também têm parafusos nos dedos atarraxados ao teclado. A mim dá-me tanto valor que um cigano dá aos perfumes falsos que vendem na Rua Stª Catarina (ou óculos escuros).
ADEUS! Estou cheia dos teus berros, da tua agressividade e falta de cabos de comunicação ao vivo. CIAO!
Ficou igual. Que espanto!
Ciao de Novo
Como todos os “Ciaos” este voltou a ser mais um “olá de novo”. Ora recadinhos no Messenger, ora mensagens para o telemóvel e prontos! Fazíamos as pazes de novo passados três a quatro dias. Eu, francamente, a maioria das zangas nem sei de que fontes surgiam. As nossas discussões são como a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.
Mensagem: olá. Vou jantar com os meus filhos a qualquer lado, não sei a que horas chego, mas aparece lá para as 22:30 como é costume, ok? bj
Mensagem de Florbela: está bem, caso contrário, se algum de vocês eventualmente se engasgar com um osso ou ficares sem água no radiador, por favor avisa, para eu não ficar à espera. Avisa só, pode ser também por sms, enfim se demorarem mais do que previsto, ok? Bj
Sou tão compreensiva…nem uns avós são assim perante as perrices mal-educadas dos netinhos bem-educados e sobredotados.
Jantei sossegada como uma freira fora do convento. À hora determinada e porque a minha pontualidade é mais fiel que o Elias, desci as escadas para depois poder subir o elevador dele. Não vejo o seu carro, nem a matrícula que não tem letras ou números portugueses…estranho…o carro da Raquel miraculosamente também não está por perto, o mais certo é então ele o ter estacionado quase em minha casa.
Toquei à campainha, toquei no botão, carreguei, nada!
Mensagem: onde estás? Estou aqui à porta de tua casa como combinado a esta hora. Aconteceu alguma coisa?
Mensagem: ainda estamos a pedir sobremesas, o puto ainda está a acabar os gazes do sumo, depois falta o café e a conta. Vamos assim que formos, ok?
Estou espantada! Deixou-me pendurada pela primeira vez. Ele é ainda mais pontual ou quase. São vinte e duas e trinta.
Mensagem: olha, por educação e respeito por mim bem podias ter avisado em vez de ter que estar aqui dentro do carro que está gelado, para além de estar rodeada de gente com aspecto esquisito, de quem vê poucas vezes água e que gosta de andar a penar pela terra. Ainda me assaltam, senhor! Mas qual a dificuldade de me avisares do teu atraso? É tão simples…avisar…telefonar… mensagem ….
Vinte e três e trinta e seis quando chegaram. Está a apanhar os tiques da doce amada. Ainda ficou furioso, escaldado, exaltado, mal-educado, agressivo, inflexível, incompreensivo e incompreensível:
- Pensas que és quem? Eu estava a jantar com os MEUS filhos, tens sempre que estar em primeiro lugar, é?
Chiça, eu só disse que podia ter avisado que vinha tarde, ou que nem vinha dormir. Só pedi para me avisar!
Voltei para minha casa, ele estava mais impossível que ele próprio. No dia seguinte seguia para Bruxelas. Era eu que o iria voar ao Aeroporto. A Raquel que o faça ou os bons e sinceros amigos do tão afamado site internauta!
CIAO!
Tens Sorte Ainda Assim
Tens sorte pá! Pelo menos duas fêmeas! há quem nem tenha uma tarântula ou uma tartaruga para cuidar de um doente como tu, ou aqueles fiéis amigos que só os conheço através do teu monitor portátil bem seguro nas tuas pernas ou ante-pernas…ou antes das pernas. E lá voas tu uma vez mais para longe de mim, nas tuas asas, sei que são mais que as do avião que te transportam seja lá quem for que te tenha levado ao apeadeiro. Fico-te sem uma asa e pronto!
Como o cão espreita sempre o prato da comida tu o fazes comigo a uma hora de distância de mim. O assédio via Messenger não demorou a tardar:
Henry via messenger: olá, estás boa? Ainda amuada? Furibunda?
E depois era eu que voltava atrás…pois…não sou do signo caranguejo, sou carneiro, tanto dou lã para aquecer, como cornos para doer.
Floribela via messenger: e então correu bem a viagem, já fizeste algum dos exames?
Descreve sucintamente os resultados, para já mais ou menos normalizado, tendo em conta os dois maços de tabaco por dia e algumas cervejas para ajudar a engolir o fumo.
Henry odeia aquela cidade, como se cada esquina fosse uma célula negra em crescimento, assim como eu já a começava a odiar por o ver assim sugado.
Fica sempre em casa de sua mãe, com quem se dá tão bem como o vento norte se dá com o do Leste, como um tripeiro e um alfacinha ferrenhos, um do FCP, o outro do SLB, um aprecia gatos o outro iguanas, um gosta de café com leite e o outro de leite com café. Duas crianças em inchaço preparado a ser picado pela ponta de um alfinete. Dois imaturos seres, dois estrangeiros entre si, do mesmo gene, do mesmo tudo. O mesmo acontece connosco: um fala Búlgaro, o outro Venezuelano. Literalmente! LI-TE-RAL-MEN-TE!
Henry via messenger: tou farto desta merda, amanhã tenho outro exame fod** e mal possa saio daqui. Como foi o teu dia Florbela? Olha, desculpa, dá-me 1 minuto por favor, apareceu agora a família. Falamos mais daqui a pouco. Bj
Florbela: tá…inté…bj…
Pois, se diz família é porque são os que estão a viver debaixo das saias da mãe, ou seja, a família Raquel. Terei de esperar pelo menos uma hora e meia, é que o pirralho de cinco anos tecla melhor que a Maria João Pires e a Borboleta está mais interessada nas amigas e nos amigos japoneses, aqueles desenhos animados esquisitos.
Terei de aguardar a minha vez. Espantados? Eu não.
A minha hora chegou finalmente. Horas e horas de conversa e o coitado com uma hora a mais. Por isso o tempo é relativo, não? É a hora de cada um e cada qual.
Continua….